quinta-feira, 17 de julho de 2008

Diariamente

Ah, essa coisa de vida adulta. Acordar, tropeçar no cachorro, correr para o banho, se vestir depressa, esquecer dos brincos, beber um gole de café para depois ser espremida no vagão do metrô.

Chegar na firma descabelada e suando dar um "oi, bom dia!" e não ser respondida, apenas observada, como se aqueles três minutos de atraso fossem motivo para perdermos todos os clientes e conseqüentemente eu ser demitida. Quanta bobagem.

Algumas horas ali, organizando isso, aquilo e aquilo outro, respondendo e-mails, atendendo ligações e esperando ele chegar. Ele chega, a gente almoça, fala do dia anterior, paga as contas, ri, lembra situações desagradáveis, briga, faz as pazes e enfim trabalha.

Depois escovo os dentes, penteio o cabelo e faço xixi. Vou embora para a segunda jornada ainda ali no início do expediente dele. Ele me leva na porta, às vezes até o elevador, quem sabe vai comigo até lá. São poucas quadras a pé. Diz que me ama, eu respondo também, planeja o final de semana, o Natal, o Réveillon e o Carnaval. Depois combina o "mais tarde", e o mais tarde é dali a umas três ou quatro horinhas.

Bato o ponto, subo três andares, ligo o computador e lá estamos nós de novo: conectados. Passamos a tarde juntos e separados, fazendo mil planos mirabolantes para o nosso futuro incerto, não o nosso-nosso, mas o da nossa carreira, do nosso trabalho, da nossa conta no negativo no final do mês.

Depois ele passa lá, toma um mate ou um café, come uma pizza ou um pão de queijo, qualquer coisa que sirva de desculpa para cinco minutinhos juntos a mais. Aí ele vai embora, me liga do ônibus, me liga de casa, pergunta que horas eu devo sair.

Já é tarde. Desço as escadas, atravesso um corredor cheio de quinquilharias, bato o ponto e pego um ônibus. Em casa, o básico: banho, jantar e televisão. Ele me liga preocupado querendo saber se já cheguei. Sim, respondo. A gente conversa, ri, faz planos, conta histórias, fofocas, se chateia, se diverte, depois um boa noite, durma bem, eu te amo e até amanhã.

E aí começa tudo de novo. Eu, ele, nós dois e nossas vidas adultas. É por isso que repito para mim mesma todas as manhãs antes de tropeçar no cachorro: Que bom que ele existe, que está comigo, que é feliz, que me faz feliz e que é para sempre. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos trabalhos legais e nos ruins, nos saldos positivos e nos negativos, enfim nessa vida adulta de todos os dias.

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